Livro revela que montadoras colaboraram para manter a ditadura no ABC

Livro revela que montadoras colaboraram para manter a ditadura no ABC

TESTE RONDA – RESUMO INTERCEPTADO

O livro Repressão Sociedade Anônima, de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, lançado nesta semana em São Paulo, documenta que montadoras, bancos e empresas metalúrgicas colaboraram para manter a ditadura militar, com impacto direto sobre trabalhadores da região do Grande ABC paulista.

A obra resulta de três anos de pesquisas documentais e entrevistas. Os autores concentraram o estudo em cinco empresas: Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford, e relatam que empregados foram observados, fichados, investigados, perseguidos, demitidos, presos e torturados.

Segundo o livro, a cooperação empresarial incluía financiamento de equipamentos e material para o aparelho repressivo, além da inserção de militares e de informantes nas fábricas. Os pesquisadores dizem ter encontrado listas de trabalhadores consideradas “listas sujas”, compartilhadas entre empresas e usadas para impedir a reempregabilidade.

O texto recorda que, em 2015, o Ministério Público de São Paulo aceitou abrir procedimento com base em depoimentos da Comissão Nacional da Verdade. Seis anos depois, o órgão divulgou relatório apontando que a Volkswagen contribuiu intensamente para o aparato repressivo, com conhecimento da direção da empresa. Em 2017, a própria montadora contratou o historiador Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, para investigar o período; o pesquisador concluiu que a empresa participou ativamente do sistema repressivo, expondo funcionários ao risco de prisões ilegais e tortura.

Os autores descrevem também exemplos de financiamento de materiais ligados à repressão: ao analisar livros de registro do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) na capital, encontraram referências a ramais e à compra de munições e protetores auriculares — este último, segundo os pesquisadores, financiado pela General Motors.

O livro aborda ainda as condições de trabalho e o tratamento às mulheres, que relatam controle rigoroso do tempo e do uso do banheiro, assédio e entrada precoce no mercado de trabalho, com relatos de mulheres que começaram a trabalhar aos 12 ou 13 anos.

Reina e Ferrasoli afirmam ter identificado uma filial do Dops em São Bernardo do Campo, com funcionamento próximo à sede sindical, onde pessoas eram presas e torturadas; entre os casos narrados há referência a um menor de idade que sofreu prisão e tortura.

A Agência Brasil procurou as cinco montadoras citadas no livro, mas, até a publicação da reportagem, elas não haviam se manifestado.

As investigações e as pesquisas sobre a participação empresarial na ditadura prosseguem.

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